Depois de ter cancelado a mesa da semana passada, o Banrisul voltou para a negociação esta semana e a rodada foi dupla. Na manhã de quarta-feira (5), foram debatidas as cláusulas de saúde. À tarde, deu-se início ao debate sobre as cláusulas econômicas, que continuou na quinta-feira (6) pela manhã. Embora tenham passado por quase toda a pauta de reivindicações, as negociações pouco avançaram.
O banco trouxe várias negativas e alguns “talvez” tanto nas questões de saúde, quanto nas cláusulas econômicas, no que se refere especialmente à valorização dos funcionários, isonomia entre funções e cargos e outras demandas levadas pelos trabalhadores.
Saúde é urgente
A saúde é uma das prioridades desta campanha nacional unificada. Assim, o tema do adoecimento dos trabalhadores, especialmente a NR-1, norma regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego sobre o gerenciamento de riscos ocupacionais nas empresas, tomou conta do debate na primeira mesa da rodada.
“A primeira coisa que a empresa deve fazer é reconhecer que o adoecimento mental dos colegas existe. Esse é o pressuposto para a resolução de todos os problemas desta natureza”, afirmou a diretora da Fetrafi-RS e coordenadora da Comissão de Organização dos Empregados (COE), Raquel Gil. O movimento sindical cobrou do banco a construção conjunta de um protocolo de identificação precoce do adoecimento, incluindo emissão de CAT (Comunicação de Acidente de Trabalho).
“Precisamos construir políticas para evitar que o trabalhador adoeça, uma vez que o nexo causal entre o trabalho bancário e o adoecimento da categoria é amplamente comprovado”, afirmou o presidente do SindBancários e também coordenador da COE Banrisul, Luciano Fetzner. O objetivo, portanto, é acabar com as causas do adoecimento, como o assédio moral e a cobrança por metas abusivas, e implementar mecanismos para identificar os casos antes que os trabalhadores precisem se afastar do trabalho.
Além de políticas de prevenção ao adoecimento, os representantes dos trabalhadores reivindicaram proteção aos colegas que precisam se afastar do trabalho para tratamento, garantindo que esses sejam devidamente orientados sobre seu direito a adiantamento salarial até a concessão do benefício pelo INSS, e que tenham que passar por menos burocracias neste momento de fragilidade.
“Muitos gestores não aceitam a alegação de que os colegas estão adoecidos e os colegas acabam não procurando tratamento por medo de ficarem no limbo, sem salário. O Sindicato passa as informações necessárias a esses trabalhadores, mas uma cláusula no Acordo sobre isso pode dar mais estabilidade a quem precisa se afastar”, destacou a diretora geral do Sindicato do Vale do Paranhana e membro da COE, Ana Maria Betim Furquim.
O banco não bateu martelo sobre as reivindicações, mas os negociadores afirmaram que uma proposta de redação guarda-chuva para questões envolvendo os adoecimentos e afastamentos por doenças ocupacionais será apresentada na próxima reunião, agendada para o dia 12 de agosto.
Cláusulas econômicas não avançaram
Ainda na quarta-feira, foi iniciado o debate item por item das cláusulas econômicas da pauta de reivindicações. Como a pauta é bastante extensa, a mesa foi suspensa ao fim da tarde e retomada na manhã seguinte.
Com relação ao índice de reajuste salarial e demais verbas, como vales alimentação e refeição, o banco afirmou que irá aguardar os desdobramentos da negociação nacional com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) para aplicar os índices de reajuste da Convenção Coletiva Nacional (CCT). Os representantes dos trabalhadores, contudo, afirmaram que o objetivo principal da negociação é a valorização dos trabalhadores do Banrisul, exigindo propostas específicas.
Para início de conversa, os membros da COE receberam uma radiografia, solicitada na mesa anterior, sobre o número de empregados em cada um dos cargos e funções existentes hoje no Banrisul, para se ter uma melhor avaliação de como os banrisulenses estão hoje distribuídos. Foi cobrado em mesa que haja igualdade de oportunidades para todos os trabalhadores do banco, respeito ao princípio de isonomia, bem como a ampliação de oportunidade de tombamento para jornada de 6 horas sem redução salarial.
Para a recentemente criada tabela de funções gratificadas também foi afirmado pelo banco que pretende aplicar apenas o índice de reajuste definido nacionalmente na CCT. Os sindicalistas foram enfáticos ao reafirmar que o valor das "GFs" pagas pelo banco são insuficientes diante das responsabilidades de TBs, GRs e GADs, voltando a exigir uma valorização expressiva da tabela.
"O próprio banco vem tendo dificuldades de ocupar algumas vagas de gratificados, pois em muitos casos não compensa se mudar para assumir uma função complexa que paga tão pouco. Ademais, mais da metade do quadro atual do banco ou exerce uma função gratificada, ou é escriturário e está aguardando sua vez de crescer para esse lugar. O banco precisa rever sua posição a respeito dessa pauta", afirmou o coordenador da COE Luciano Fetzner.
Sobre os cargos preteridos do tombamento para 6h na reestruturação, os representantes do banco responderam que não oportunizarão novos tombamentos, e ainda trouxeram para o debate a pretensão de apresentar uma proposta de “autogestão de jornada” para alguns cargos comissionados. A discussão foi rechaçada pela mesa, visto que o controle de ponto é considerado um direto e que abrir mão dele pode acarretar descontrole de horários e consequente sobrecarga de trabalho.
Outro ponto bastante debatido foi a valorização dos plataformistas. A reivindicação é de que estes trabalhadores recebam gratificação fixa como estímulo e em reconhecimento à sua contribuição para os resultados do banco. Inicialmente o banco rejeitou a proposta, mas aceitou voltar a estudar o assunto.
“Temos um pedido muito forte pela valorização desses funcionários, que são a base da pirâmide que sustenta o banco”, destacou a diretora do Sindicato dos Bancários de Lajeado e membro da COE, Ana Maria da Silva.
O diretor do Sindicato de Passo Fundo e membro da COE, Paulo de Mello, afirmou que vê a valorização dos plataformistas como um ponto fundamental das reivindicações. “Estas são algumas das pessoas mais cobradas do banco e dão sustentação ao trabalho dos gerentes de relacionamento. Solicitamos que o banco avalie melhor esse ponto para avanço da negociação”, disse.

Caixas voltam ao debate
A gratificação de caixas ser paga integralmente mesmo aos eventuais e a criação do cargo de Tesoureiro foram temas também exaustivamente discutidos, obtendo o mesmo retorno dos representantes do banco, de que irão rediscutir junto à diretoria sua posição inicial de negativa. Os negociadores do banco admitiram a importância e a grande responsabilidade dos empregados que lidam diretamente com altos volumes de numerário, principalmente no abastecimento dos caixas eletrônicos.
“Certas visões de economia que o banco faz possuem viés equivocado. Esses funcionários são de extrema confiança por terem a guarda do numerário e não deveriam ser tratados como despesa e sim funcionários fundamentais para o funcionamento do banco. Eles merecem ser valorizados”, argumentou Clarissa Gatelli, diretora do Sindicato dos Bancários de Caxias do Sul e membro da COE.
Outros assuntos
Temas que influenciam diretamente na vida dos banrisulenses, como licença adoção, licença em virtude de casamento e auxílio creche/babá, incluindo acréscimo quando a criança tem alguma deficiência também foram discutidos na mesa. Sobre os dois primeiros pontos, o banco alegou que já cumpre o que está sendo reivindicado, porém a COE solicitou que seja clausulado para maior segurança jurídica. No caso do auxílio creche e babá, o banco deve trazer uma proposta de redação na próxima mesa.
Cabergs e Fundação Banrisul não entraram no discussão
Dois pontos importantes da pauta de reivindicações dos banrisulenses ainda não entraram em debate: Cabergs e Fundação Banrisul. Os representantes do banco informaram que a diretoria não quer debater esses temas na mesa de negociação e sinalizaram a possibilidade de uma mesa à parte, com a presença de representantes das duas instituições.
Mobilização
Na avaliação da COE, mesmo com as negativas e as revisões de posições do banco, nada está garantido ainda, nem mesmo a renovação do Acordo vigente. Por isso, é fundamental manter a mobilização.
O movimento sindical convida os bancários e a sociedade a se somarem à mobilização não só pela campanha salarial, mas também pela defesa do Banrisul público e fortalecimento do banco em ato marcado para o dia 11 de agosto, terça-feira, em frente à agência central do Banrisul (Praça da Alfândega, Centro Histórico de Porto Alegre). O ato terá concentração a partir das 11h e projeta o momento principal para o meio-dia, com a realização de um grande abraço ao banco dos gaúchos, reforçando a campanha de mídia “Banrisul é coisa nossa”, promovida pela Fetrafi-RS, SindBancários Porto Alegre e Sindicatos do Interior.

Texto: Aline Adolphs/SindBancários de Porto Alegre e Região
Foto: Thayssa Kruger/Fetrafi-RS